Vagabond

Olá, Mundo!

Se assim como eu você não é um cultor tão fervoroso de animes e mangás talvez ainda não conheça a série Vagabond, baseada em uma das épocas mais turbulentas da história do Japão. Entretanto, isso está prestes a mudar, pois a resenha de hoje vou esclarecer tudo o que precisa saber para ler esse quadrinho do caralho.

Capa original da edição japonesa de 1999.

Como digo desde o começo do blog as resenhas que elaboro tendem a trazer mais do que o conteúdo de análise das obras em si. A ideia é apresentar todo o universo, influências do autor para a criação e qual são suas marcas deixadas na cultura pop posteriormente, além de todo seu contexto histórico; e veremos bastante disso em Vagabond.

Sendo assim, senhoras e senhores, esperem uma resenha um pouco mais longa, cheia de referências e citações para o entender de uma maneira simples e completa toda a história do mangá.

Lembrando que todo o texto necessita de atenção para sem compreendido em sua universalidade, por isso, procure ler a resenha quando estiver com tempo disponível e sem distrações – principalmente essa que vou citar alguns nomes complicados e datas que não podem ser confundidas. Combinado, leitores?! Ótimo. Vamos com toda força agora.

Ilustração feita por Takehiko Inoue

Começando com a contextualização da criação do mangá:

Vagabond é uma série de mangá baseada no romance japonês Musashi, de Eiji Yoshikawa e conta a história de Miyamoto Musashi.

Yoshikawa foi um jornalista, escritor e mensageiro de guerra por conta de seus contos publicados nos jornais de maior tiragem no Japão. Embora grande parte de suas obras não sejam contos originais, criaram bastante interesse da população pela história do Japão, o que acabou lhe dando o prêmio Cultural Order of Merit, em 1960 (o prêmio mais alto de um profissional de letras do país).

A publicação de seu livro Musashi aconteceu entre 1935 e 1939, em 1.013 episódios no jornal Asahi Shimbun; ultrapassando a marca de 100 milhões de exemplares vendidos no início da década de 80. O enredo foi baseado na vida de Miyamoto Musashi, um famoso espadachim (as vezes citado como samurai), ronin e escritor do tratado sobre as artes-marciais conhecido como Livro dos Cinco anéis.

O Livro dos Cinco anéis foi escrito num momento em que Musashi já havia abandonado a vida de guerreiro, e depois de se isolar um ano e oito meses dentro de uma caverna, vivendo de forma mais erudita – realizando pinturas, poemas e meditando; resultando no manuscrito. Dividido em cinco capítulos, o estudo trabalha com os quatro elementos naturais, cada um representando uma parte da obra, sendo o  último designado como “vazio”:

 

1° Capítulo – Terra: Fala sobre o Caminho da Estratégia do ponto de vista do estilo Niten Ichi Ryu (estilo de luta criado por Musashi com técnicas de luta de espadas de madeira, espadas longas e curtas, duas espadas e bastões);

2° Capítulo – Água: Diz sobre a dominância do corpo para estar longe do erro;

3° Capítulo – Fogo: Esse capítulo já é dedicado a luta e o aperfeiçoamento com a prática e a disputa;

4° Capítulo – Vento: O autor compara o Niten Ichi Ryu com outros estilos de luta contemporâneos;

5° Capítulo – Vazio: Concluindo o livro, o último capítulo, segundo o autor, é um termo para denominar o que não tem começo e nem fim. Ao entender o princípio não estamos atendendo o princípio. Os princípios devem ser entendidos internamente, com o coração, e não seguidos à risca, como é dito no manuscrito do Fogo.  E, a partir do momento em que se vive os princípios, percebe que tudo está ligado e só há um Caminho; lá estará o Vazio.

 

Edições de “O Livro dos Cinco Anéis”

 

– Tá certo. Mas o que tudo isso tem a ver com Vagabond?

Bom, acontece que Musashi viveu num dos momentos mais importantes e violentos da história do Japão; a batalha de Sekigahara, que marcou a transição entre os períodos Sengoku (período dos estados deliberantes; de diversas guerras civis) e o Tokugawa – conhecido também como Edo (governado pelos xoguns da família Tokugawa).

Depois de batalhas pelo poder e disputas políticas, o líder dos Tokugawa, Toyotomi Hideyoshi, foi o responsável pelo reagrupamento dos daimyos, que eram os grandes senhores de terras, fazendo crescer o poder da sua família.

Durante os anos do comando de Toyotomi (1568 – 1600) o Japão viveu momentos de conquistas, conhecido como Azuchi–Momoyama. Entretanto, após a sua morte, seu título foi passado ao seu filho Hideyori, de 5 anos, acompanhado por um grupo de regentes. Mas Tokugawa Ieyasu, um dos encarregados pela criação do garoto, quis assumir o poder, dando início a uma nova guerra civil, dessa vez entre os Tokugawa e os Toyotomi.

A batalha foi travada e o lados dos Tokugawa venceram e consolidaram sua vitória sobre o clã Toyotomi em 1603, seguindo um longo período de paz (264 anos – até 1868).

Pintura do período Edo sobre a batalha

Com as consequências do fim das batalhas, muitos samurais passaram a vagar pelo país oferecendo serviços de defesa como trabalho à quem contratasse, já que mesmo em um momento sem guerras, sempre havia a desconfiança dos daimyos de uma nova possibilidade de conflito. Por conta disso, era muito comum que os samurais vagassem procurando adversários para enfrentar e consolidar seu nome, o tornar famoso.

E é exatamente nesse ponto em que o mangá começa (ainda estamos falando de Vagabond XD).

Vagabond – a tradução seria vagabundo ou andarilho – é uma série de mangá escrita e desenhada por Takehiko Inoue baseada na história e lenda de Miyamoto Musashi, publicada de março de 1999 a maio de 2015, comercializado inicialmente na revista Morning e posteriormente pela editora Kodansha, no Japão. Ganhador dos prêmios Mangá Kōdansha, em 2000 e em 2002 o Prêmio Cultural Osamu Tezuka.

Inoue é um mangaka japonês bastante conhecido por obras como Slam Dunk, Hang Time (baseada na história de Bob Greene) e Real, seu terceiro mangá de basquete, mas esse, sobre o esporte na cadeira de rodas.

A primeira publicação de Vagabond no Brasil ocorreu em novembro de 2001 pela editora Conrad, que deixou a série incompleta com 14 edições publicadas (entre trancos e barrancos) até setembro de 2006. Houve também uma curta publicação pela editora Nova Sampa que tentou realizar uma versão deluxe compilando edições a partir da última publicada com o preço de R$ 40,00, mas a baixa venda acarretou em mais um cancelamento.

Atualmente a editora Panini Comics detêm os direitos da obra e a está publicando novamente, desde o começo, estando até o momento na edição 15.

A história de Vagabond começa momentos depois a batalha, ainda no campo de Sekigahara, onde são apresentados os dois personagens principais; Shinmen Takezo e Hon’iden Matahachi. Ambos não eram soldados, mas lutaram na guerra em busca de recompensas por degolarem algum grande general inimigo, com o intuito de ganharem status de guerreiros e mudarem suas humildes vidas em e de suas vilas.

Contudo, Takezo e Matahachi lutaram do lado dos Toyotomi – os perdedores da guerra-  e passaram a vagar sem destino em uma jornada que levaria a transformação de um jovem rebelde a um grande samurai.

E dessa forma o mangá conta a trajetória do demônio Shinmen Takezo até se tornar o conhecido Miyamoto Musashi, passando por toda sua transformação espiritual e a construção de sua filosofia e pensamentos sobre o amadurecimento a partir das artes-marciais.

Claro que, mesmo baseado na história de um dos mais famosos homens da criação do Japão como conhecemos hoje, boa parte do enredo é ficção ou lenda, já que até mesmo a participação de Musashi na Batalha de Sekigahara é incerta, baseando-se apenas em trechos do Livro dos cinco anéis.

Ainda sim, não diminui em nada a qualidade de Vagabond.

A narrativa é muito boa e tem todos os elementos da construção de um grande herói, desde sua origem conturbada, redenção, até o momento em que estabelece seu nome. Tudo contado com bastante detalhe em um enredo com reviravoltas e batalhas fantásticas.

A arte é outro ponto a se destacar, porque de verdade, é divina. Deixei alguns gifs no meio do texto onde o criador do mangá, Takehiko Inoue, demonstra um pouco de sua fodelância ao desenhar uma arte enorme de Takezo com nanquim.

Todo quadro, toda página tem uma dedicação incrível; é perceptível o trabalho autor, pois tudo tem vida, o cenário sempre em movimento com pássaros voando ou folhas caindo, as expressões dos personagens demonstradas pelos olhos, pela boca, o movimento de seus cabelos ao vento e as cenas de ação… A riqueza do trabalho é imensa.

Vagabond, sem dúvida, é aquele quadrinho que vale a pena uma leitura demorada para que se aprecie cada mínimo detalhe, mas vale mais ainda tê-lo em sua coleção para que sempre possa cultuar um dos melhores mangás já criados.

Como créditos para a edição da Panini, é necessário dizer que o trabalho está fenomenal, muito parecido com o original com algumas melhorias, mas com um cuidado bem fiel; brochura, título em verniz, índice, glossário, orelhas, as primeiras páginas coloridas igual ao original – menos na segunda edição, pois acompanha um pôster do caralho.  Tudo feito com muito cuidado e carinho, o que é perceptível.

 

Como sempre, caso queria adquirir os links para compra estão na descrição separados por preços e vou deixar também um vídeo do canal Pipoca e Nanquim, do Bruno Zapo, um dos editores que trabalhou na publicação pela Panini, onde ele comenta um pouco mais sobre as especificações do material; ficou muito bom, assistam!

 

 

Links das redes sociais do blog e pessoais minhas estão aqui também, curtam o Ler ou Não para sempre receberem as notificações de novos posts e comentem, pois amo ler o que vocês acharam desse puta trabalho hahaha’ Muitos obrigado, até!!

 

 

Capa ed. 2016 – Panini Books

Informações adicionais 

  • Vagabond –  vol. 1
  • Autor: Inoue, Takehiko
  • Editora: Panini Books
  • Gênero: Ação, Aventura, Drama, Ficção histórica, Chanbara
  • Páginas: 256Comprar: Saraiva // Livraria Cultura // Submarino (mais em conta)
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